O caso do superfaturamento de bicicletas e o erro dos jornalistas

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1991 foi marcado por uma epidemia de cólera. De acordo com uma entrevista concedida pelo hoje Deputado Alceni Guerra, eram 3 milhões de casos e 1 milhão de morte. A cólera, que é transmitida por água, mata rápido. E pelo difícil acesso dos médicos as comunidades, o então Ministro Alceni Guerra treinou em cada comunidade um agente de saúde. Inicialmente eram 23 mil agentes, que focavam no norte e nordeste.

agente de sáude / fonte: amparo.sp.gov.br

O Ministério da Saúde teve que comprar artigos básicos para os agentes, como bicicletas, mochilas e tênis. Após a compra, a imprensa acusou o Alceni Guerra de não ter comprado a bicicleta pelo menor um valor apresentado. O deputado disse que ligou para a empresa que vendia mais barato e eles não possuíam a quantidade de bicicletas que precisava naquele momento e o preço de fábrica seria mais caro do que pagou.

Agravantes
O presidente Collor queria se aproximar do Leonel Brizolla, então governador do Rio de Janeiro, para implantar um projeto no estado. O Alceni Guerra seria o intermediário para a relação. A imprensa começou a atacar o ministro da saúde, já que o Brizolla era inimigo declarado do Roberto Marinho.

Além disso, naquela época, Collor havia cortado todos os gastos que considerava supérfluo para investir no Ministério da Saúde. Entre estes gastos estavam as verbas voltadas para a publicidade.

Direito de Resposta
Alceni Guerra tentou se defender algumas vezes, mas enquanto o fazia dava mais motivo para a mídia atacá-lo. Por isso foi aconselhado pelo advogado Saulo Ramos a não se defender. “Defesa é alimento para mais ataques”.

fonte: g1.globo.com.br

Quando foi provada a sua inocência, os meios de comunicação o deram menos de um minuto para se defender. Em compensação aos 10 mil m² de publicação impressa e 104 horas de televisão de acusação que ele afirma ter recebido.
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Ministro Inocentado
Depois de inocentado, não processou nenhum jornalista. Foi aconselhado pelo advogado de que se ele quisesse continuar na política, não seria interessante abrir processos. Hoje, Alceni Guerra acredita que se tivesse processado os difamadores, teria reconstruído sua identidade com mais facilidade.

Por outro lado, ele acredita que o caso das bicicletas pode servir de exemplo para o erro não se repetir. Também diz que hoje possui uma relação de respeito com a imprensa. Dificilmente lê algo sobre ele que tenha uma conotação negativa.

Volta na política
Ele voltou para política afirmando que é uma vocação. “Quando você gosta de ajudar os outros, não tem como parar.” Entre suas realizações ele cita a criação dos agentes comunitários, o SUS e a realização de transplantes.

Alceni Guerra afirma que apesar de poder fazer o bem, entrar na vida pública significa estar pronto para ser acusado e exposto. Ele conclui que quando um político possui projetos inovadores e que dão certo, uma possível conseqüência é atrair inveja. Quem quer te substituir, quer te colocar pra baixo, justifica. 

Vida Pública x Vida Privada
O caso que mais ficou marcado na imprensa foi uma charge publicada na primeira página do Jornal “O Globo”. Era um desenho dele com o seu filho andando de bicicleta no Parque da Cidade. Outro caso, também no dia dos pais, foi quando sua filha voltou para casa com um presente feito pelos professores: um cartaz com ofensas. O Alceni Guerra afirma que foi muito sofrimento para os filhos, que também eram alvos de provocações.

fonte: jornal O Globo - Charge de Chico Caruso

Erro ético
“Somos seres humanos, erramos”. Por sua formação em medicina, compara jornalista com médico: “Jornalista lida com algo semelhante à vida: informação. Esta equivale a oxigênio ou a alimento. Não se vive sem informação. Jornalista também erra, mas ele deve saber corrigir quando acontece”.

Além disso, ao ser perguntado sobre a abordagem sensacionalista dos jornais, ele culpa a sociedade. “O jornal veicula o que o público quer ler. Para haver uma mudança, a sociedade deve mudar seus interesses”.

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Abordagem jornalística da Ata do COPOM

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Já existem veículos que dão destaque a outros assuntos, como O Monitor Mercantil que possui em sua cobertura diária pautas sobre: economia política, economia internacional, mercados financeiros, seguros e empresas.

De acordo com o editor executivo do O Monitor Mercantil (MM), Marcos de Oliveira, o jornal pauta sua cobertura pela independência e pela busca de um olhar diferente daquele da maioria dos jornais brasileiros. Ele explica que isso acontece tanto pela linha política do MM como pela busca de um nicho que o diferencie de outros veículos financeiros e da cobertura de Economia dos jornais de assuntos gerais. Já que ele acredita que de modo geral, as notícias – não só em Economia, mas também nela – pecam por receber uma mesma abordagem em praticamente todos os jornais, com uma linha ditada tanto pelos interesses financeiros das empresas que os editam, quanto pelos seus interesses políticos. “As fontes, em número restrito, são praticamente as mesmas em todos os veículos, e seguem praticamente a mesma linha. Poucas vozes discordantes dão apenas um aspecto “democrático” à cobertura jornalística.O MM procura justamente fontes diferentes, que possam dar uma visão alternativa aos fatos noticiados.

Outra característica é aprofundar a análise de alguns assuntos mais importantes, ampliando a mera cobertura factual.”, diz Marcos de Oliveira

Um exemplo da abordagem diferente do MM pode ser visto nesta nota, publicada na edição de 17/6/2010, numa coluna de comentários e análise:

 “A reação dos ‘jornalões’ brasileiros à decisão do presidente Lula de sancionar o reajuste de 7,7% para os aposentados que recebem acima de dois salários mínimos ajudar a entender que não apenas a Internet explica o processo de emagrecimento de alguns diários. Com visões de mundo antagônicas às de seus leitores, esse tipo de imprensa, não raro, se põe em situações em que seu apego aos seus dogmas a coloca em campo oposto ao da audiência. Lateralmente, ainda, joga água no moinho do presidente Lula e da candidata do PT a presidente, Dilma Housseff, ao apresentar Lula como um líder capaz de contrariar os interesses de burocratas sem votos para ficar do lado dos aposentados, o que, aliás, como revela o veto deste ao fim do fator previdenciário, está longe de ser realidade.”

Pré-Copom, pré-ata
As vésperas da reunião do COPOM, este vira motivo de debate no mercado financeiro e jornalístico. Há o que se chama de tensão pré-COPOM, nesta especulam o que vai ser discutido pela comissão.                                 .

Após a realização da reunião, é divulgado um comunicado à imprensa. Esse comunicado é uma nota que costuma dizer como foi a reunião. Pode sinalizar o que o Banco Central decidiu fazer ou se há divisão entre os diretores, por exemplo. As vezes o BC pode divulgar, em outras palavras que:  “O BC está avaliando o cenário macroeconômico para então definir o que vai fazer com a taxa de juros”. Ou seja, o comunicado à imprensa nem sempre é esclarecedor e assim surgem indagações do que vai vir na ata propriamente dita (que vai ser lançada uma semana após a reunião): “Será que o crescimento vai dar uma freada, vai rever projeção de inflação ou não vai?”, questiona Vicente Nunes. A partir desse questionamento surge a tensão pré-ata.

Importância de entender a Ata do COPOM
O Banco Central possui uma visão do país e é a instituição que mais tem indicadores para definir as taxas de juros. Eles realizam reuniões para analisar a situação econômica do país e tomar decisões sobre a política monetária. A ata permite avaliar o momento atual e o que esta por vir.  Também existem relatórios trimestrais de inflação, que analisam detalhadamente a conjuntura econômica e financeira do país, bem como apresenta suas projeções para a taxa de inflação. Essas questões atingem diretamente o consumidor e a sua estabilidade financeira. 

Mídia especializada x Mídia massiva
Vicente Nunes não acha que a mídia especializada e a mídia massiva entram em confronto de sentidos ao escrever sobre a Ata do COPOM. Existe uma diferença na estrutura e na abordagem, já que o interesse do público é diferente. De acordo com ele, há um problema em comum nas duas mídias: “são muito economês, não visam todo o público”. Ele comenta que as vezes ele tem dificuldade de entender matérias no Valor Econômico pela sua linguagem rebuscada. Mas ele afirma que há cada vez mais matérias com a preocupação de traduzir para o leitor comum o que é economia. O jornalista econômico afirma que não basta reproduzir o que uma fonte do mercado e o governo disseram. Tem que se perguntar: “ E aí?”. Deve-se escrever com a idéia que o leitor não sabe do que se trata. É preciso dizer o que aquilo significa, como aquilo vai afetar a vida dele.   Ou seja, contextualizar o assunto. O objetivo do Correio Braziliense é que a matéria atinja o maior número de pessoas. Para isso buscam escrever de forma simples e objetiva, com o mínimo de economês.

O jornal Valor Econômico é um veículo específico de economia, conseqüentemente seus leitores procuram assuntos inerentes ao tema. Apenas esse fator já é bastante seletivo, pois só a pequena parte da sociedade se interessa e compreende o assunto. Ao contrário de outros veículos que tem o público alvo a grande massa, ou seja, pessoas com a mais diversa pluralidade cultural, o jornal Valor Econômico tem como público adultos de, em média, 27 a 42 anos, casados e com trabalho fixo. Segundo pesquisa realizada no ano de 2006, 78,3% do público alvo do jornal possuem no mínimo uma graduação.

Com a possibilidade de explorar mais especificamente o COPOM, Comitê de Política Monetária do Banco Central, o jornal publica desde notas, matérias e até reportagens nas edições especiais: suplementos. Durante os dias que o Comitê está reunido e posteriormente a eles, os colunistas comentam as decisões impostas. Seja qual for o formato que o assunto foi abordado, os textos não possuem como maior objetivo fazer com que o leitor entenda a mudança que vai acontecer na vida particular de cada um e explorar ao máximo assuntos de cada reunião. 

O jornal do Commercio é exemplo de mídia massiva jornalismo de variedades. O jornal é dividido em  5 editorias, sendo que uma delas é de economia. A cobertura do Comitê de Política Monetária do Banco Central, não recebe um espaço razoável no jornal por falta de espaço. Segundo o editor de economia do jornal o tema é bem tratado, possui uma cobertura especializada adequada, mas acha que a mídia de variedade não possui espaço suficiente para abordar com profundidade as informações.

Jornalista Econômico
De acordo com Vicente Nunes, o aconselhável é que o jornalista tenha um conhecimento econômico para trabalhar nessa área. Mas afirma que o ideal é se ter uma equipe mesclada e unida, com pessoas novas e outras mais experientes. No período pré-COPOM, em que se especula o que o Banco Central vai fazer. Uma pessoa que é novata no assunto fica influenciável, não tem discernimento e conhecimento suficiente para questionar. Muitas vezes o jornalista pode ser levado a seguir interesses do mercado financeiro.

Banco Central e Ministério da Fazenda, por ainda se dar tanta importância a essa cobertura macroeconômica, são consideradas dentro da redação como áreas nobres da economia. Por este motivo, quem normalmente cobre o Banco Central são pessoas mais experientes.

Ética na profissão
Normalmente, a chefia dos jornais está sempre atenta a possíveis erros cometidos pelos repórteres. Vicente Nunes garante que as matérias devem ser aprovadas por ele e pelo sub-editor. Se achar necessário manda reescrever. No Correio Braziliense há uma preocupação em não deixar uma matéria errônea ser publicada.

Além disso, ele ressalta que é preciso ficar atento já que muitas reportagens podem ter sido influenciadas por fatores externos. Fontes podem influenciar os jornalistas para tirar proveito da divulgação. Existem profissionais de comunicação que se submetem e manipulam a informação. Por isso, o editor do Correio Braziliense afirma, “Não é para publicar tudo que chega. Tem que ter um filtro.”

+mais! – Folha de São Paulo

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Em 1977 circulou a primeira edição do suplemento semanal Folhetim, criado pelo jornalista Tarso de Castro. O Folhetim era uma extensão da grande imprensa para assuntos de um jornalismo cultural.

Inicialmente, o suplemento funcionava como uma espécie de revista da semana, sendo feito, sobretudo, por jornalistas e cartunistas. Em 1989, o Folhetim deixou de circular, depois de 636 edições. No lugar, é criado o caderno Letras. Três anos depois, a Folha de São Paulo lança o caderno Mais!.

Criado por Marcos Augusto Gonçalves, o suplemento se tornou um caderno voltado para os leitores que procuram literatura, sociologia, filosofia e artes. O novo veículo de cultura absorveu o suplemento Letras e promoveu uma espécie de fusão entre o jornalismo que havia sido elaborado pelo Folhetim e o da Ilustrada.

O suplemento semanal se encarrega de produzir reflexões sobre a indústria cultural, abrindo o espaço -que antes era usado só por jornalistas – para uma nova inteligência brasileira.                                     .

Marcos Augusto Gonçalves, o Mag, jornalista que começou a profissão de forma acidental e hoje comanda um dos cadernos mais lidos do jornal Folha de S. Paulo, a Ilustrada. “Mag tem diploma na área de exatas, mas possui um enorme interesse por Letras e Literatura. Marcos começou a carreira de jornalista no jornal O Globo e já passou por veículos como Diário Lance, Revista Isto É e Lance Net. Dentro da Folha, empresa para a qual contribuiu em diferentes etapas de sua carreira, desenvolveu funções como a de editor da Revista da Folha, correspondente internacional, editor do Caderno Opinião e criador e primeiro editor do Caderno Mais!.” Portal Imprensa”.                                                           .             

Em entrevista para o Portal, Mag diz que o caderno Mais! tem uma série de colaboradores e críticos, que trabalham fora da redação, e um grupo de colunitas. O jornalista comenta sobre a rotina corrida dos cadernos Ilustrada e Mais!. Segundo o editor, ocorre uma reunião de pauta para discutir a agenda. Nessas reuniões, os redatores e repórteres podem apresentar sugestões dentro de uma dinâmica diária em que aparecem idéias. Depois, todas as idéias são sistematizadas na reunião de pauta final.                                            

O jornalismo feito pelo caderno Mais! tem como objetivo ser crítico, sem excluir o entretenimento, o lado da orientação do leitor e o da reportagem. O foco é o equilíbrio. Os textos procuram mostrar as novas tendências, produtos novos. O caderno vai em uma linha de diversidade, uma característica de extrema importância para o jornalismo cultural. “Diversidade no sentido de a gente transitar por esferas e registros e visões diversas, então, desde uma entrevista mais consistente com um intelectual como Augusto de Campos, até a reportagem mais Contigo, digamos estrelinha de Tv”, comenta Mag. O intuito é de fazer um jornalismo cultural sério, sem se fixar somente na discussão, nem no superficial.                                     .

Entre vários profissionais que garantem a credibilidade do caderno estão: o colunista Jorge Coli, professor titular em História da Arte e da Cultura, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. O colunista Boris Fausto, um historiador e cientista político brasileiro. O colunista e historiador francês Peter Burke. O professor e colunista Luiz Felipe de Alencastro e o colunista José Arthur Giannotti, professor universitário brasileiro. Em “ Da Redação” estão Euclides Santos Mendes e Ernane Guimarães Neto. Em “ Da Reportagem Local” está Reinaldo José Lopes. O caderno conta ainda com tradutores como o Paulo Migliacci e Clara Allin e com colaboradores como o professor Marcelo Leite e o escritor científico  Marcelo Gleiser. O atual editor do cadeno Mais! é Marcos Flamínio Peres, jornalista, doutor em Letras pela USP e autor de “ A Fonte Envenenada” ( Ed. Nova Alexandria), livro a respeito de Gonçalves Dias.

Diagramação

Os veículos do século XIX tinham como característica uma massa densa de texto diagramada verticalmente. As manchetes eram extensas e não cumpriam a idéia de atrair o olhar do leitor. Não havia cores e dispunha de poucas figuras. A partir do avanço de novas tecnologias, surgiu a importância de um veículo apresentar um projeto gráfico. O propósito é manter uma identidade e garantir uma leitura agradável. Para isso, os designers do jornal fazem uso de recursos gráficos, como por exemplo, a tipografia, a infografia e as ilustrações.

Nos últimos anos, há uma procura de criar um design cada vez mais moderno. O caderno Mais! representa um exemplo desse advento digital, no sentido de que possui uma equipe especializada no assunto. Há uma preocupação em não superlotar uma página com informações e textos. Possui uma média de 2 matérias por página . Além disso, existem recursos que complementam e substituam objetivamente um elemento textual.

Valorização de fotos, publicando-as em um formato maior, uso de arte e publicidade são exemplos. Já a infografia é uma linguagem cada vez mais implantada nos meios de comunicação. Nessa categoria se encontra mapas, gráficos e desenhos. Ilustração só pode ser considerada infografia se explicar algo, contar uma história ou transmitir informação como notícia (Alberto Cairo, especialista em design e artes visuais). Boxes também são usados. São quadrados em destaque usados para definir palavras, para esclarecer um tópico, para estabelecer comparações, entre outras funções.  Por ser um caderno cultural existe a liberdade de não ter limites quanto a criatividade. Os designers podem utilizar até de cores para destacar, diferenciar e atrair sempre de acordo com o que está escrito.

São estratégias diferentes, mas que possuem o objetivo de tornar a reportagem mais descontraída e melhorar a didática.  Ajuda a contextualizar o assunto e aumentar o campo de entendimento.                                            

Ilustrada x Mais!

Ilustrada apresenta propagandas, tanto que é comum ter na página principal uma publicidade que ocupa todo o espaço. Também cumpre de uma forma mais severa as características exigidas pelas normas jornalísticas, como título informativo com um subtítulo abaixo e lead. Há uma limitação na criatividade do jornalista em escrever sobre cultura. O foco do suplemento diário é voltado para realizações de artistas. Até o nome do caderno, Ilustrada, faz alusão a uma leitura superficial, mais descontraída. Falta a reflexão cultural que o caderno Mais! oferece.  Exemplo disso é a Ilustrada publicar programação de televisão aberta e o resumo das novelas da semana, astrologia, quadrinhos, cruzadas e sudoku.  Mas mesmo com abordagem diferente, o objetivo é divulgar cultura.

Mudanças Gráficas
A Folha de São Paulo já anunciou a terceira mudança gráfica dos últimos dez anos para Maio de 2010. Um trabalho que começou desde setembro de 2009, sob a direção da designer Eliane Stephan, que também foi responsável pela reforma realizada em 1996.                                                                    .

A reforma desse ano vai se adequar às mudanças nos hábitos dos leitores da sociedade pós-moderna. Desafios se levar em conta a expansão da instantaneidade e o bombardeio constante de informações. O que deve ser visto a partir de Maio é um “jornal mais limpo, visualmente econômico, retilíneo”. O perfil do meio vai ser mais homogêneo e unitário, diminuindo a diversidade abordada. A intenção será de corrigir os excessos e inserir blocos de texto com tamanho pré-definido.

O novo editor-executivo da Folha, jornalista Sérgio Dávila afirma: “A Folha tem a tradição da vanguarda nas reformas gráficas da imprensa brasileira das últimas duas décadas e meia. Foi assim com a cadernização, o amplo uso de infografia, a cor total, a diagramação modular, para ficar em alguns exemplos que depois seriam adotados pela concorrência”.

De gago para dono de um império: Chatô

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Assis Chateaubriand era um nordestino que preocupava os pais por ser gago e raquítico. Apesar das dificuldades em se alfabetizar, ele não demorou a se interessar pelo mundo das letras para posteriormente se formar em advocacia. Com apoio de brasileiros influentes, se tornou dono de um império de comunicações. O livro “Chatô – O Rei do Brasil” conta o surgimento de alguns dos 100 jornais do seu aglomerado, das primeiras revistas e das emissoras de televisão e rádio. Além disso, atuou na política e nos negócios, sendo dono de laboratório químico e do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

fonte: Fundação
Assis Chateaubriand

Fernando Morais escreveu a biografia de “um homem cheio de grandeza e miséria, paixão e fúria”. “Chatô – O Rei do Brasil”, mostra um personagem pretensioso e persistente, sempre de forma extravagante. Um dos seus sonhos era conhecer a Rainha da Inglaterra e para isto até participou da cerimônia de coroação da monarca, Elizabeth II. Como não conseguiria cumprimentá-la, resolveu estender faixas no caminho onde passaria o cortejo real. As mensagens diziam: “Nossa Senhora de Aparecida guarde a Rainha” e “Nosso Senhor do Bonfim guarde a Rainha. Anos depois, iria conhecê-la no cargo de embaixador do Brasil naquele país.

Mal visto e temido por vários, Chateaubriand muitas vezes era chantagista e ladrão. Com muita audácia, criava projetos para conseguir aliados e patrocínio financeiro. Na maioria dos casos, ou o dinheiro não era bem administrado ou não era investido integralmente na causa. A maioria dos investidores sabia disso, mas não ousava negar um pedido do Chatô. Dono de jornais, ele tinha o poder de engrandecer aliados e acabar com a reputação de inimigos. Para ataques mais polêmicos se apropriava de dois pseudônimos: Macaco Elétrico e A.Raposo Tavares.

O Fernando Morais cita vários exemplos que mostram como o jornalista ia contra o compromisso da profissão, em manter a imparcialidade diante dos fatos. O Chateaubraind de seus jornais foram adquiridos com o intuito de eleger o Getúlio Vargas como Presidente da República. Já a revista O Cruzeiro, a mais vendida na época, publicava coberturas fotográficas de tudo que tivesse relação com o Getúlio Vargas e João Pessoa (candidatos a presidência e vice-presidência da república, respectivamente).

fonte: capa divulgação

Apesar da falta de ética, a dedicação que Chatô possuía com o jornalismo fica clara no livro. Ele teve uma notável participação no desenvolvimento da comunicação no Brasil. Com ajuda do Getúlio Vargas, enquanto ministro da fazenda, garantiu que a revista O Cruzeiro estaria nas bancas de Belém e Porto Alegre simultaneamente. Para isso, além de usar caminhões, barcos e trens, Chatô fretou um bimotor para a distribuição nacional. Também foi um dos primeiros a mandar correspondente para fora do país e a trazer o sistema televisivo ao Brasil.

As 695 páginas representam um relato denso com riqueza de detalhes. Para compor a obra, foram 92 entrevistados e aproximadamente 54 livros pesquisados. Chatô fez parte da história do Brasil, por isso o autor tem a preocupação de ilustrar a situação do país enquanto Chatô vivia. O livro “Chatô – O Rei do Brasil” é leitura obrigatória para qualquer estudante e profissional de comunicação. O megaperfil escrito por Fernando Morais mostra um exemplo de perseverança. Também explicita os desafios que um meio de comunicação assume ao ser criado.

O bom marido

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Robert Delbart antes de 1960 - fonte: baú da famíla

Chega uma visita e está lá Robert Delbart, belga de 82 anos, olhando pela janela, esperando. Aos poucos vai com seu andador em direção à entrada. Careca por opção, abre a porta e sorri. O militar aposentado continua a estabelecer metas e a atingir objetivos. Agora não é mais guerras e treinamentos. O foco é a esposa. Quando ela precisa, se transforma, como um camaleão, em manicure, médico e massagista. Por isso, assina como o bom marido.

Mora em uma casa de repouso com a esposa, que está inválida há pouco mais de dois anos. O Papi, como é chamado por todos na família, cuida dela com muito cuidado. Com dificuldade para andar, ele circula de um lado para o outro, dizendo que tem muitas missões para cumprir. Corta as unhas da Rainha Mãe [assim como a chamam], faz massagem nos seus pés e passa creme no seu rosto.

Cumpridas as suas obrigações, ele senta. Se estiver sozinho, cochila, por afirmar que não tem tempo de dormir à noite. Quando está acompanhado, aproveita para compartilhar suas teorias. Por exemplo, confessa sentir seu coração parar enquanto dorme, mas garante que volta ao acordar. São crenças que fazem parte do seu charme, mas intensificam a sua teimosia. Ao ponto de negar tratamento e remédios quando está doente. De acordo com ele, os médicos não sabem de nada e querem enganá-lo.

Expostas as suas teorias, histórias de guerra não faltam em suas conversas. Quando jovem, fez treinamento de guerra no litoral da Bélgica e, já casado, foi para o Congo, antiga colônia do seu país, após a Segunda Guerra Mundial. O que fazia? Responde dizendo que protegia o território. Fala do clima agradável, da boa saúde que possuía e da geografia, que passou a conhecer muito bem. A quem pergunta mais, ele apenas sorri.

Entre os muitos resquícios de guerra, ele usa a surdez, causada pelo barulho do canhão (e intensificada pela idade) a seu favor. Mesmo não ouvindo bem, aproveita para se esforçar a escutar apenas o que quer. E a técnica infalível para “escapar de fininho” é sorrir, balançar a cabeça e dizer “sim, sim”.

“Não julge o filme pela capa”

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Não julgar o filme pela capa é um dos lemas do Victor Monteiro, brasiliense de 19 anos e estudante de Jornalismo. Ele também não pode ser compreendido pelo que aparenta. Comunicativo e alegre, ele esconde o lado sensível, carente e dependente da aprovação dos pais nas decisões que toma. Excêntrico, agitado e com um jeito de falar pausado, ele tem o cinema como um sonho longe de ser realizado, já que não possui o apoio da mãe. Apesar de afirmar que não possui traumas na vida, foi vítima de bullying quando estava no ensino médio.

Victor era alvo de xingamentos e era empurrado pelos colegas. Fez 11 anos de taekwondo e só lembra de uma briga que teve na escola. Admite que costumava guardar as emoções para si. Provavelmente, liberava o que sentia durante a luta. Apesar de não dar muita importância aos acontecimentos, as agressões podem ter influenciado a sua personalidade. Como a de encontrar conforto em casa ou em filmes.                              . 

Para o brasiliense, segurança na vida é família. O que define sendo apenas como mãe e pai. Embora dar tanta importância à instituição, nega querer casar e ter filhos. Garante que os pais são mais do que o suficiente. Ao ser perguntado onde seria depositada essa segurança quando os pais falecerem, percebe-se que ele encara o assunto com desconforto: ele vira o rosto e olha para o nada. Pára e pensa. Responde com a cabeça baixa: “Não vou ter mais referência. Vai sobrar só eu.”

Quanto a paqueras ou namoros, são relações que ele nega querer ter. Pelo menos até aparecer um amor à primeira vista. Enfatiza o “primeira vista” e afirma que o sentimento deve ser recíproco. Ele já teve uma relação amorosa que começou tão rápido quanto terminou. O término foi culpa dele: “Limpei a mão depois de ficar de mãos dadas.”. “Ela suava muito”, justifica. Ele diz e demonstra não ser romântico, mas é uma pessoa atenciosa e sensível. Uma menina entra na sala com uma roupa nova e ele é o primeiro a comentar: “Roupa nova? Muito bonita”. É uma tentativa de agrado, sem segundas intenções. Além disso, ele não tem vergonha de admitir: “Eu choro em filme de final triste.” “choro sem engasgar e soluçar”. Um choro contido e reservado, assim que nem ele.

Chico Xavier atrás as lentes

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O filme do Chico Xavier mostra como um longa metragem biográfico e nacional pode ter sucesso nas bilheterias. O longa conseguiu retratar uma vida tal como foi e desmistificar a vida de um médium espírita.. A história supera a expectativa por mostrar um homem muito além da sua espiritualidade. Era um homem que tinha como tarefa ser um correio entre dois mundos. Percebe-se nitidamente que o filme não é sobre a religião e sim sobre ele como pessoa. O diretor do filme, Daniel Filho, evitou uma abordagem sensacionalista. O que pode justificar a identificação de pessoas de diversas crenças ao personagem principal do filme.

fonte: divulgação

Há uma preocupação com a estética. Por exemplo, a primeira cena é embaçada, como se o espectador fosse o olho do Chico Xavier, após ele colocar gotas para a sua catarata. O diretor usa de cenas sobrepostas para mostrar a transição de idades. O Chico Xavier criança abaixa para colocar flores no túmulo da mãe. Ao levantar ele já é m jovem adulto. Essa passagem faz com que o espectador tenha uma visão da vida dele de forma contínua.

O formato do filme foi feito a partir de um debate realizado no extinto programa de televisão, o Pinga Fogo. A cada resposta que o personagem dá, surgem flashbacks com trechos da vida do Chico Xavier. O filme começa com sua infância no interior de Minas Gerais e vai até o momento em que se encontra no estúdio de televisão. Os flashbacks são lineares, mas a estrutura em si vai e volta da vida do Xavier ao programa. Isso garante o entendimento do espectador e mantém a dinamicidade.

A trama paralela está interligada com a história principal. O filme retrata um caso verídico em que uma carta psicografada foi usada para inocentar um acusado de homicídio. O filho do personagem do Tony Ramos morreu e sua esposa espera ter uma carta do filho. Acompanha-se ao longo da história principal, o drama que essa mãe passa e a paz que o médium proporcionou.

Há cenas de caráter cômico, que não dão credibilidade a certos acontecimentos. Mas, nos créditos finais aparecem cenas da verdadeira entrevista no programa Pinga Fogo e o próprio Chico Xavier comprovando as histórias relatadas ao longo do filme.

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