Robert Delbart antes de 1960 - fonte: baú da famíla

Chega uma visita e está lá Robert Delbart, belga de 82 anos, olhando pela janela, esperando. Aos poucos vai com seu andador em direção à entrada. Careca por opção, abre a porta e sorri. O militar aposentado continua a estabelecer metas e a atingir objetivos. Agora não é mais guerras e treinamentos. O foco é a esposa. Quando ela precisa, se transforma, como um camaleão, em manicure, médico e massagista. Por isso, assina como o bom marido.

Mora em uma casa de repouso com a esposa, que está inválida há pouco mais de dois anos. O Papi, como é chamado por todos na família, cuida dela com muito cuidado. Com dificuldade para andar, ele circula de um lado para o outro, dizendo que tem muitas missões para cumprir. Corta as unhas da Rainha Mãe [assim como a chamam], faz massagem nos seus pés e passa creme no seu rosto.

Cumpridas as suas obrigações, ele senta. Se estiver sozinho, cochila, por afirmar que não tem tempo de dormir à noite. Quando está acompanhado, aproveita para compartilhar suas teorias. Por exemplo, confessa sentir seu coração parar enquanto dorme, mas garante que volta ao acordar. São crenças que fazem parte do seu charme, mas intensificam a sua teimosia. Ao ponto de negar tratamento e remédios quando está doente. De acordo com ele, os médicos não sabem de nada e querem enganá-lo.

Expostas as suas teorias, histórias de guerra não faltam em suas conversas. Quando jovem, fez treinamento de guerra no litoral da Bélgica e, já casado, foi para o Congo, antiga colônia do seu país, após a Segunda Guerra Mundial. O que fazia? Responde dizendo que protegia o território. Fala do clima agradável, da boa saúde que possuía e da geografia, que passou a conhecer muito bem. A quem pergunta mais, ele apenas sorri.

Entre os muitos resquícios de guerra, ele usa a surdez, causada pelo barulho do canhão (e intensificada pela idade) a seu favor. Mesmo não ouvindo bem, aproveita para se esforçar a escutar apenas o que quer. E a técnica infalível para “escapar de fininho” é sorrir, balançar a cabeça e dizer “sim, sim”.